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Coluna no foco do Farol


Acting: monte a peça e o papel que você definiu e que quer representar

Por Gilberto Guimarães


Passamos a vida representando. No bom sentido, ou seja, representando nossos próprios sentimentos e não representando no conceito de ‘fingir’ ou de ‘criar’ uma atuação diferente do que somos. Para evitar uma má associação entre representar e fingir, talvez usar a expressão “acting” seja o mais adequado.

O conceito é que ‘atuamos’ para alguém determinado, em determinada situação. Esse alguém, nosso público, participa como espectador e envia sinais de julgamento de nossa atuação. O que buscamos é o prazer e/ou a evitação da dor, dos medos e dos desejos, seja psicológica, instintiva e/ou fisicamente. Portanto, buscamos ter a Aceitação, o Reconhecimento, isto é, buscamos agradar nosso público, seduzi-lo, conquistá-lo.

Os textos das várias peças encenadas nos “palcos da vida” são, portanto, tentativas de alcançar o sucesso, ter aceitação, ser reconhecido. Os textos das “peças” e os personagens que representamos são elaborados por nós mesmos, de forma livre, não racional ou planejada. Ocorrem ao longo dos principais momentos, sentimentais e emocionais, da vida, principalmente na primeira infância. Na elaboração das “peças” usamos preferencialmente os sentimentos e apenas um pouco do racional.

Para cada situação de nossa vida, lá atrás, na primeira infância, criamos uma reação que forma nossa peça. Quando essa versão faz sucesso, ou seja, quando agradamos nosso ‘público’, guardamos essa peça e passamos a repeti-la. Acreditamos que foi sucesso quando, de alguma forma, temos a percepção da atenção do ‘nosso público’, que reage e nos olha, presta atenção a nós, mesmo de forma agressiva, desagradável... No entanto, é o sentimento puro, é a atenção que nos importa. A partir daí voltamos a agir sempre da mesma maneira, repetindo essa versão para aquele tipo de situação. A própria situação também não é clara. Ela é percebida pelo sentimento e não pela razão. Finalmente, não nos damos conta que criamos peças e personagens e saímos repetindo nossa atuação ao longo da vida.

Isso significa que nosso comportamento, a peça representada, é fruto dos sentimentos percebidos, e acaba sendo mais ou menos definido e previsível. Assim, acabamos por criar alguns comportamentos básicos que possuem características comuns (nervoso, sentimental, fleumático etc.). É como se agíssemos conforme um programa interno armazenado.

Na verdade, o conceito seria mais bem expresso como sendo várias peças, pois criamos peças para cada uma das muitas situações. Criamos reações, sentimentos, atitudes, posturas e falas para as várias situações de percepção das carências. Obviamente nem sempre as peças continuam adequadas a futuras experiências de vida, mas continuamos a representá-las, inconscientemente. Caso o uso atual seja inadequado, seremos basicamente uma pessoa inadequada. O difícil do processo é que, ao longo da vida, trocamos de público e representamos peças para novos públicos e sentimentos mais elaborados, para situações mais difíceis, mas sempre retornaremos aos textos básicos porque o conhecemos ‘de cor e salteado’, pois estão sempre prontos para serem representados. A consciência disso é muito baixa. Atuamos por reflexo e, principalmente nos momentos de tensão, estresse, cansaço físico ou doença, reagimos da maneira mais simples e básica, ‘procurando’ nosso público primário - a “velha peça” (comportamento) flui espontaneamente.

Não escolhemos nosso público. A escolha primária ocorre em uma fase muito precoce, onde inclusive temos muito pouca capacidade de inteligência racional. Não avaliamos opções; portanto, é difícil acreditar que tenhamos realizado algum tipo de escolha. Por outro lado, estamos fortemente centrados na fase instintiva, límbica e sentimental e a ‘escolha’ deve ter sido originada pelas carências de instinto (sobrevivência) e/ou de sentimentos (abandono, rejeição, desatenção). É certo que a ‘escolha’ tenha sido originada por carência. Atuamos basicamente para suprir carências, para eliminar a percepção da dor e, portanto, escolhemos como público exatamente aquele que promove em nós a maior reação ao sentimento de carência. O Universo que nos cerca é pequeno e limitado e, portanto, nosso público deve estar perto por convivência, sentido (instinto) ou sentimento. O importante é que essa escolha de ‘público primário’ permanecerá por toda a vida (desde que não trabalhada). Esse público pode ser personificado posteriormente por diferentes pessoas durante uma existência. O público também é um “sentimento” e, portanto, é representado por um comportamento ou por uma atitude. É um indivíduo na origem e passa a ser uma atitude (conforme as atitudes mais marcantes desse indivíduo). Atuamos para um indivíduo e, posteriormente ao sucesso daquele momento, daquela época e daquela situação, passamos a repetir a atuação quando “percebemos” uma situação, atitude ou comportamento semelhante ao que sentimos naquele momento que vivenciamos.

Nossas representações básicas são atos de profunda demonstração de sentimentos puros, caracterizados em personagens: amor, ódio, inveja, ciúme, aceitação, perda, rejeição, paixão, desejo etc. Com nossa evolução intelectual, conseguimos de alguma forma ‘mascarar’ o sentimento puro, subjacente ao “Acting”, com razões e justificativas racionalmente elaboradas. Aprendemos a projetar nossas atitudes em causas externas e conseguimos criar uma linha de coerência para explicar o conjunto de nossas ações. Estabelecemos, portanto, uma escala de valores e interesses que passam a determinar nossos objetivos e atitudes. “Vou vencer por mim mesmo”, “não gosto de grosserias”, “sou educado e cortês”, “sou tímido”, “comigo é assim” etc. Na verdade, essas são apenas as palavras-chave dos textos montados para agradar nosso público.

Esse conjunto "coerente" ou, sempre repetido, de nossas atuações (reações) diante da sociedade forma a maneira como as pessoas nos veem.

O importante é que podemos reprogramá-lo, de uma forma muito mais amadurecida e consciente. Para reprogramar e alterar nossas formas de reação, precisamos alterar a percepção da dor e do público-alvo para poder ter o efeito da mudança. Afinal, atuamos para chamar a atenção do público: para um novo público, novas peças! É importante também observar e entender a forte relação postura/comportamento, porque o “Acting” é uma reação completa, verbal, sentimental, física e postural. A maior parte das mensagens que transmitimos são feitas por nosso próprio corpo; portanto, atuamos com o corpo. O corpo não sabe ser falso ou verdadeiro. Uma mudança corporal pode gerar uma mudança de comportamento desde que, em paralelo, modifiquemos a peça armazenada e o sentimento de percepção da reação do público.

Três pontos importantes devem ser observados para a mudança ou criação de “peças mais adequadas”:

1) O alvo do “Acting” passa a ser uma situação ou uma pessoa do cotidiano atual para a qual a peça original disparada pode ser apresentada, forte e deslocada (reações sentimentais para relações sociais ou profissionais).

2) É fundamental perceber que nosso ‘público’, no “Acting”, é também ator e autor de suas próprias peças, representando na vida para seu próprio público e dando pouca interação à peça representada pelo outro.

3) Somos atores em nosso “Acting”, mas somos, ao mesmo tempo, público para alguém. A consciência de ser público consegue modificar nossas peças quando somos atores.

Isso vale para responder a pergunta mais frequente: “Podemos mudar?”

É possível, mas não é fácil mudar. Essa modificação ou transformação das “peças” é o processo do chamado “amadurecimento”.


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